O que homens têm a aprender com crianças de Beasts of No Nation?

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Em 16 de outubro estreou no Netflix sua primeira produção de longa-metragem de ficção. Com direção e roteiro de Cary Fukunaga, de True Detective, a partir do livro do nigeriano Uzodinma Iweala, Beasts of No Nation já nasce como um marco da história do cinema por iniciar uma série de filmes criados para o serviço de streaming, mas vai muito além disso.

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Estrelado pelo jovem Abraham Attah e pelo renomado Idris Elba, o longa leva o espectador a uma dura viagem de 137 minutos por uma África cruel pelos olhos de uma criança. Sonhando em chegar ao Oscar, o filme já deu ao protagonista Attah, até então um amador, o prêmio de melhor ator jovem no Festival de Veneza. E o garoto tem muito a ensinar aos marmanjos que assistem ao filme.

Fim da inocência

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Quando começa Beasts of No Nation, o menino Agu, vivido por Attah, ainda compartilha os sonhos e fantasias de muitas crianças pobres de grande parte do mundo, mas é por pouco tempo. Uma guerra entre o exército local e grupos paramilitares coloca o jovem em cima de um grande barril de pólvora, em que ele terá que fazer escolhas que seriam difíceis para qualquer adulto.

Em uma sociedade em que cada vez mais a infância é prolongada, se torna ainda mais duro ver a vida de uma criança que deve se transformar em um frio soldado da noite para o dia. Não há ali a comodidade de um lar, uma família, apenas o instinto de sobrevivência move Agu. E é o suficiente para que ele siga em frente.

Cumplicidade

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Aos 12 anos, Agu está em uma guerra lutando ao lado de outras crianças até mesmo menores que ele. Por mais que aos olhos dos outros eles sejam apenas pequenos monstros assassinos, eles tiveram a inocência roubada e por isso há um tácito acordo de cumplicidade entre eles que garante que um ajude o outro em seus piores momentos.

Mesmo sem falar nada, Strika, o jovem que capturou Agu e o treinou, se mostra mais do que um simples tutor, se mostra o maior amigo que o protagonista pode ter na guerra. Mesmo em um ambiente hostil, a amizade é algo fundamental na vida desses meninos, seja quando um salva a vida do outro, seja quando oferece narcóticos para amenizar suas dores.

A guerra não poupa ninguém

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Dizer que não existem vencedores em uma guerra, apenas perdedores, pode soar clichê, mas no caso de Beasts of No Nation isto parece ainda mais forte. Agu, sua família e todo seu povoado não estava na guerra quando ela começou, mas todos foram tragicamente afetados, assim como outros povoados por onde os soldados dos dois lados passaram.

O filme ainda mostra a realidade de um destes lados, comandado pelo personagem de Idris Elba. Independente do resultado de cada batalha que enfrentam, é nítido que eles morrem um pouco a cada dia. A dureza dos confrontos e mesmo dos momentos de trégua não somente tiram a humanidade daquelas crianças, como destroem todo um país.

África real

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Beasts of No Nation, aliás, é um dos poucos momentos em que podemos ver no cinema de grande público o continente africano. E mesmo que mostre um lado bastante problemático do continente, é de incrível importância para nos aproximar deles, nos fazer entender melhor sua cultura e seus conflitos.

Por mais que a África mostrada neste, ou em filmes como Diamante de Sangue, Hotel Ruanda, O Último Rei da Escócia, entre outros, seja de um ambiente hostil, mostra ao resto do mundo que o continente vai muito além dos leões. No caso do filme da Netflix, isso fica ainda mais contundente, já que a empresa divulgou que 3 milhões de pessoas assistiram ao longa em apenas 10 dias. Já é o maior sucesso do Netflix, ultrapassando absurdamente a audiência comum de uma produção independente.

Maioridade penal para quem?

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Porém, para o brasileiro, talvez a questão que mais nos gere identificação seja a questão de ver a escalada de uma criança da inocência ao crime. Em tempos em que a redução da maioridade penal ficou ainda mais em evidência, o filme faz pensar sobre o real benefício (ou não) de se punir crianças como adultos.

Quem termina de ver Beasts of No Nation não tem qualquer dúvida de que Agu é um assassino frio e cruel, mas também sabe que no fundo ele é apenas uma criança que tem medo de ter perdido sua inocência, e isso não é apenas ficção. O que transforma um menino em um monstro na maior parte das vezes não é uma suposta personalidade assassina, mas as porradas que a vida lhe dá. E se a vida tivesse sido mais carinhosa com os milhares de Agus que temos por aí?

► Texto de Ravi Santana. Jornalista, crítico de cinema e editor do site BRCine

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