Entender de esportes vai muito além de saber escalações, resultados ou estatísticas. Para muitos homens, o conhecimento esportivo funciona como uma verdadeira moeda social: ele abre conversas, cria vínculos, gera respeito e facilita a entrada em novos círculos sociais. Em bares, no trabalho, em encontros informais ou até em ambientes profissionais, falar sobre futebol, basquete ou grandes competições internacionais é uma das formas mais rápidas de criar conexão, expressar emoções e estabelecer pertencimento. Este artigo explora por que o esporte ocupa esse papel central na sociabilidade masculina – do ponto de vista cultural, emocional e até científico.

Aquela sensação familiar é conhecida por qualquer pessoa que já entrou em um bar numa noite de sexta-feira ou em um café de bairro numa manhã de segunda, quando as impressões de um fim de semana esportivo agitado começam a ser organizadas. Em uma mesa, há um debate acalorado sobre a rodada do Brasileirão e se o treinador errou nas escalações e substituições. Em outra, um torcedor do Arsenal, preso a um ciclo de frustrações há anos, insiste em voz alta que agora, finalmente, esta é a temporada de Arteta. Em outro canto, a conversa já avançou para os principais favoritos à Copa do Mundo de 2026, enquanto um quarto grupo revisita cada chance perdida da história do futebol brasileiro.
Uma esposa ou uma namorada ciumenta pode chamar isso de “conhecimento inútil”, mas nada poderia estar mais longe da verdade. O verdadeiro valor de conhecer esportes está na facilidade com que isso permite se enturmar em praticamente qualquer lugar, sem precisar se esforçar demais.
É fácil imaginar os comentários cruzando de uma mesa para outra. Logo surge uma disputa silenciosa sobre quem entende mais de esporte, quem aposta melhor, qual foi o bilhete perdido mais “doloroso” de todos os tempos ou qual site de apostas confiável vale a pena usar. Quase sempre, alguém do grupo tem a resposta na ponta da língua. É por isso que o esporte vai muito além do jogo em si. Ele costuma funcionar como uma verdadeira moeda social, ajudando a fazer novas amizades, fortalecer as antigas ou encontrar um ponto em comum mesmo quando você entra em um ambiente sem conhecer absolutamente ninguém.
Conhecimento e emoção

Os homens são frequentemente acusados de não saber demonstrar emoção, de serem fechados demais, supostamente incapazes até de sofrer da maneira “correta”. Isso, claro, não é verdade. Basta lembrar de quem ainda tem viva na memória a derrota por 7 a 1 para a Alemanha ou de quem não esquece o pênalti perdido por Rodrygo contra a Croácia na Copa do Mundo de 2022.
A verdade é mais simples. Para nós, é mais fácil nos comunicar por meio do esporte, expressar sentimentos a partir de algo que aconteceu em um campo ou em uma quadra. Assim como, em certos círculos, o conhecimento sobre vinhos tem peso, e em outros são a história ou a literatura, entre homens ter um repertório de informações funciona como uma moeda capaz de abrir até portas de ferro. Quanto mais você sabe, maior é o seu “poder de compra” dentro do grupo. Interesses variados ajudam. Histórias convincentes sobre jogos a que você assistiu ou apostas que deram certo elevam ainda mais o seu prestígio.
Se você consegue transformar esse conhecimento em algo concreto, seja montando um bilhete de apostas bem estruturado ou se destacando em um dos muitos pub quizzes que hoje acontecem em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras, as pessoas passam a olhar para você de forma diferente.
Como os homens criam laços

O esporte também pode abrir portas para novos círculos sociais. Pense bem. Volte no tempo e lembre-se de como você se aproximou dos seus melhores amigos. Se vasculhar a memória, quase sempre vai perceber que as primeiras conversas giraram em torno das cores do clube e de histórias vividas nas arquibancadas. Muitas vezes, inclusive, os amigos mais próximos estão em lados “opostos” do estádio: um coração bate pelo Flamengo, o outro pelo Fluminense. O que é raro é um torcedor realmente apaixonado por esporte manter proximidade com alguém que troca de canal assim que começa o hino da UEFA Champions League.
Sob esse ponto de vista, o esporte funciona como um verdadeiro passe de entrada para novas companhias e novas conversas. Em vez de pagar uma rodada no bar, você se sustenta com conhecimento sobre gols no último segundo ou cestas decisivas no estouro do cronômetro. Em todo grupo masculino, quase sempre há alguém que assume o papel de autoridade final quando o assunto é tática ou decisões da arbitragem.
Um crédito extra fica para quem tem informações “de bastidores”: transferências, uma provável escalação inicial, o time que o treinador, ou o técnico da seleção, está preparando. A partir daí, o conhecimento esportivo deixa de ser apenas entretenimento casual. Ele pode até se transformar em uma forma de status, ao menos dentro desses pequenos círculos de convivência.
Uma explicação científica

O esporte reúne tudo aquilo que os homens costumam carregar dentro de si. A necessidade de pertencimento e de uma identidade compartilhada caminha lado a lado com a competição. Esforço e resultados importam. Ao mesmo tempo, o esporte permite que as emoções venham à tona – até as mais expostas. Muitos homens o usam como uma forma de válvula de escape, seja praticando, seja simplesmente falando sobre ele.
Essa lógica migrou para as redes sociais. Nos últimos anos, vimos a ascensão dos “influenciadores”, pessoas que valem a pena acompanhar porque têm informação, visão e confiança para compartilhá-las. Em vez de pagar uma rodada no café, hoje um like cumpre esse papel. Funciona como uma forma de reconhecimento.
A moderação, no entanto, continua sendo essencial. Um artigo acadêmico de Dana Young e Lisa Gibbs, da University of Melbourne, analisa o esporte como uma forma de capital social, mas também alerta para o risco de excluir grupos minoritários. No esporte, assim como em qualquer mesa, deve haver espaço para todos que chegam de boa-fé.
Jogo e identidade
O esporte e, especialmente, o conhecimento sobre esporte funciona como um código social. Em muitos sentidos, ele se tornou um dos últimos refúgios masculinos: um espaço onde a confiança se constrói e a conversa começa, mesmo entre pessoas que não se conheciam antes.
No fim das contas, ainda é o único lugar em que basta mencionar uma bola que explodiu no travessão para que todos ao redor da mesa saibam exatamente de qual momento se está falando.
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