Mitos sobre o vírus zika e a microcefalia

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A disseminação do zika vírus e sua provável ligação com casos de microcefalia tornaram-se uma emergência de saúde pública internacional, declarou nesta segunda-feira (1º) a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O grupo foi convocado na semana passada, quando o órgão demonstrou preocupação com a “propagação explosiva” do vírus e estimou que o número de casos nas Américas pode chegar a 4 milhões este ano.

O que é Zika Vírus?

Vírus Zika é uma infecção causada pelo vírus ZIKV, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, mesmo transmissor da dengue da febre chikungunya. O vírus Zika teve sua primeira aparição registrada em 1947, quando foi encontrado em macacos da Floresta Zika, em Uganda. Entretanto, somente em 1954 os primeiros seres humanos foram contaminados, na Nigéria. O vírus Zika atingiu a Oceania em 2007 e a França no ano de 2013. O Brasil notificou os primeiros casos de Zika vírus em 2015, no Rio Grande do Norte e na Bahia.

Relação entre zika e microcefalia

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A diretora-geral da OMS Margaret Chan disse que uma possível relação causal entre o vírus zika e o aumento de malformações e complicações neurológicas é “fortemente suspeita, porém ainda não comprovada cientificamente” e que é preciso garantir esforços internacionais para investigar essa correlação.

Apesar de ainda não haver uma prova científica de que o zika seja a causa do aumento de casos de microcefalia, Margaret Chan enfatizou a importância de as medidas preventivas serem tomadas desde já e não esperar até que as evidências científicas sejam conclusivas.

Causas

O vírus ZIKV não é transmitido de pessoa para pessoa. O contágio se dá pelo mosquito que, após picar alguém contaminado, pode transportar o ZIKV durante toda a sua vida, transmitindo a doença para uma população que não possui anticorpos contra ele.

O ciclo de transmissão ocorre do seguinte modo: a fêmea do mosquito deposita seus ovos em recipientes com água. Ao saírem dos ovos, as larvas vivem na água por cerca de uma semana. Após este período, transformam-se em mosquitos adultos, prontos para picar as pessoas. O Aedes aegypti procria em velocidade prodigiosa e o mosquito adulto vive em média 45 dias. Uma vez que o indivíduo é picado, demora no geral de 3 a 12 dias para o Zika vírus causar sintomas.

Sintomas de Zika Vírus

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Os sinais de infecção pelo Zika vírus são parecidos com os sintomas da dengue, e começam de 3 a 12 dias após a picada do mosquito. Os sintomas de Zika Vírus são:

  • Febre baixa (entre 37,8 e 38,5 graus)
  • Dor nas articulações (artralgia), mais frequentemente nas articulações das mãos e pés, com possível inchaço
  • Dor muscular (mialgia)
  • Dor de cabeça e atrás dos olhos
  • Erupções cutâneas (exantemas), acompanhadas de coceira. Podem afetar o rosto, o tronco e alcançar membros periféricos, como mãos e pés.

Sintomas mais raros de infecção pelo Zika vírus incluem:

  • Dor abdominal
  • Diarreia
  • Constipação
  • Fotofobia e conjuntivite
  • Pequenas úlceras na mucosa oral

Principais Mitos sobre o Zika Vírus e a microcefalia

Informações equivocadas têm circulado na internet e aplicativos de celular associando o Zika vírus a doenças neurológicas que acometem idosos e crianças, à vacina da rubéola e ao mosquito transgênico, causando ansiedade e até pânico em quem acredita nelas.

Especialistas da USP reforçam a importância de se informar por meio de fontes seguras e buscam tranquilizar a população sobre os boatos, que cresceram após o surto de microcefalia no nordeste brasileiro, com alguns casos sendo atribuídos ao Zika vírus pelo Ministério da Saúde. Veja, a seguir, um compilado de boatos que reuni na internet com os esclarecimentos dos especialistas.

O boato:
O Zika vírus teria aumentado sua incidência em vários estados brasileiros após a soltura de mosquitos transgênicos criados em laboratórios de pesquisa.

A verdade:
Segundo entomologista Paulo Roberto Urbinatti, do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, não existe nenhuma pesquisa científica comprovando a associação dos mosquitos geneticamente modificados com os casos de microcefalia.

Contrariamente aos boatos que correm na internet, Urbinatti reforça que os mosquitos transgênicos foram criados para combater o Aedes aegypti. Em cidades pequenas onde eles foram soltos na natureza, como Juazeiro, no interior da Bahia, houve o controle do vetor e consequentemente a transmissão da doença.

Embora defenda o uso da tecnologia para o combate aos mosquitos, Urbinatti aposta como medida mais eficaz ações educacionais e preventivas para conscientizar a população quanto à eliminação de possíveis criadouros em suas casas e locais de trabalhos. As políticas públicas deveriam ser permanentes e não se restringir apenas ao período do verão, quando as temperaturas aumentam e as chuvas acontecem abundantemente.

 

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O boato:
Um lote vencido de vacinas contra a rubéola teria sido aplicado em gestantes, o que teria ocasionado microcefalias nos bebês dessas mulheres.

A verdade:
A vacina da rubéola é contraindicada às mulheres grávidas, sendo aplicada apenas em crianças aos 15 meses de vida e em mulheres em idade fértil, com a recomendação de que não engravidem nos 30 dias posteriores à vacinação. A orientação é da enfermeira obstétrica sanitarista Maria Cristina Bernat, do Centro de Saúde Escola Geraldo Paula Souza, da FSP, que procura tranquilizar suas pacientes que trazem preocupações improcedentes para o consultório.

Na opinião de Maria Cristina, a celeuma na internet acontece por falta de conhecimento e porque as pessoas não buscam fontes seguras para obtê-lo.

A rubéola oferece maior risco aos bebês de gestantes infectadas pela doença no primeiro trimestre de gravidez porque a mãe pode desenvolver a síndrome de rubéola congênita, ou seja, ela poderá transmitir a doença ao feto. Ele possivelmente terá malformações que vão desde microcefalia, glaucoma congênito, retardo mental e surdez até o óbito.

O boato:
O Zika vírus poderia provocar danos neurológicos em crianças de até sete anos e em idosos – e quem contraísse o vírus poderia apresentar a Síndrome de Guillain-barré.

A verdade:
O Zika vírus pode sim ter associação com o aumento da Síndrome de Guillain-barré no nordeste brasileiro, porém, ainda não existe confirmação científica.

Também não há ligação do problema com uma faixa etária em especial, podendo atingir adultos e crianças.

Marcos Boulos, coordenador de controle de doenças da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e infectologista aposentado da Faculdade de Medicina (FMUSP) da USP, explica que as pessoas passaram a acreditar nessa ligação porque surgiram mais casos de Guillain-barré no mesmo período em que cresceu a epidemia do Zika vírus.

Segundo o pesquisador, essa conexão poderia ser feita porque certas enfermidades de comprometimento neurológico estão ligadas a vírus e bactérias em geral.

O boato:
Crianças e idosos com sintomas neurológicos, em especial o coma, devido ao vírus zika.

A verdade:
Segundo a Fiocruz, até o momento não há nenhum registro de crianças, jovens, adultos e idosos com sintomas neurológicos decorrentes do vírus zika. Ainda que não seja algo impossível de vir a ocorrer, nenhum caso foi notificado e muito menos confirmado pelas autoridades de saúde.

Porém, há confirmação da relação entre infecção por vírus zika e ocorrência da síndrome de Guillain-Barré: fraqueza muscular devido a danos no sistema nervoso *periférico* – por um ataque autoimune (isto é, as próprias células de defesa atacam células do corpo do indivíduo).

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O boato:
Inseticidas e repelentes naturais contra o mosquito transmissor do ZIKV.

A verdade:
Inseticidas e repelentes ditos ‘naturais’ a base de óleo de citronela, cravo, andiroba e outros não têm nenhuma comprovação científica de eficácia e nem têm registro na Anvisa. Há formulações comerciais registradas com fórmulas que contêm tais compostos, porém elas apresentam sempre outro princípio ativo, cuja eficácia e eficiência foram devidamente testadas.

O boato:
Ingerir ou passar sobre a pele vitamina B afasta mosquitos.

A verdade:
Não há comprovação científica de que a ingestão ou aplicação tópica de vitamina B evite que a pessoa seja picada por mosquitos. Estudos disponíveis indicam que não tem efeito: Khan et al. 1969, Maasch 1973, Ives et al. 2005, entre outros.

O boato:
Crotalária contra de mosquito.

A verdade:
Não há nenhum indício de que a Crotalaria spp. tenha efeito de combater o mosquito da dengue pela presença de libélulas que seriam atraídas pela planta.

Diz o documento do Instituto Agronômico de Campinas a respeito da prática:
“A divulgação dessa informação, como prática eficaz e comprovada e considerada por alguns até como de vanguarda é de fato alarmante e irresponsável porque, além da semeadura em praças e farta distribuição de vasinhos com mudas de crotalária, como ações de alguns políticos e de prefeituras do interior dos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por exemplo, foram propostos muitos projetos de lei de âmbito municipal, alguns vetados e outros, preocupantemente já aprovados, para incentivo ao cultivo de crotalárias (geralmente de C. juncea), bem como de citronela, muitos deles baseados em justificativas no mínimo, não adequadas, particularmente no quesito comprovação científica.”

“Segundo o professor Andrade, ‘seriam necessários milhões de libélulas para combater apenas algumas larvas do mosquito’. Informa também que, além de ser uma predadora inespecífica, ou seja, não preda preferencialmente as larvas do Aedes, é raro que as libélulas sejam constatadas em locais onde, também, é comum o mosquito da dengue. Além disso, a libélula faz a postura de seus ovos em grandes depósitos de água enquanto o mosquito precisa apenas de uma gota de água (Lange, 2001).”

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O boato:
Espalhar potes de água e trocar a água três vezes por semana para eliminar o mosquito.

A verdade:
O grande problema é que a medida não foi testada (por exemplo, aplicando-se em um bairro e comparando os níveis de infestação com bairros próximos). É temerária a indicação de medidas de saúde pública sem testes prévios adequados.

Sem testes, no entanto, há elementos que nos fazem suspeitar que a medida traz perigos potenciais.

As pessoas não têm disciplina suficiente para manter a troca da água do pote dia sim, dia não. E uma semana que deixem de trocar, pode ser o suficiente para que as larvas virem pupas e os adultos alados emerjam – do ovo ao adulto o ciclo pode levar cerca de 10 dias.

A população não tem disciplina nem de eliminar os focos de água parada nos quintais – uma fração da população tem, mas outra não – por isso que praticamente todo verão vemos surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos (embora não seja um problema exclusivo do cidadão comum).

“Apesar dos níveis de conhecimento satisfatório em praticamente todos os estudos, foram observados elevados níveis de infestação domiciliar pelo vetor, indicando que as campanhas educativas, embora relativamente eficientes na transmissão de informações, não têm alcançado seu principal objetivo, que é a mudança de comportamento das populações quanto ao efetivo controle dos criadouros do vetor. […] Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue [como algo inevitável, mas passageiro, como gripe] e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades. Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades.” (Claro et al. 2004.)

E mesmo que todos realmente trocassem a água a cada dois dias, onde essa água irá parar? Quase certamente no ralo. Aí selecionaremos as linhagens cujas larvas são capazes de completar o ciclo nos esgotos.

Medidas testadas e aplicadas são as campanhas de eliminação de criadouros (inclusive com fiscalização casa a casa), introdução de controle biológico (predadores, patógenos, competidores, técnicas de macho estéril…), controle químico, vacinação e combinações dessas estratégias.

O boato:
A microcefalia causada por agrotóxicos como a 2,4 D.

A verdade:
Há várias causas de microcefalia: genéticas, infecção por rubéola e abuso de álcool e drogas durante a gravidez. E vários agrotóxicos, incluindo o herbicida 2,4-D, têm efeitos teratogênicos – como entre outros, a microcefalia – comprovados em vertebrados. Porém, o surto atual corresponde a um número de casos mais de 10 vezes maior do que a média dos 5 anos anteriores: de cerca de 150 casos por ano para mais de 1.700 registrados até a primeira semana de dezembro. Não temos um registro de aumento súbito e nesse nível da utilização de agrotóxicos no país: o aumento foi de 700% ao longo dos últimos 40 anos.

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O boato:
A epidemia de zika é invenção para cobrir contaminação de vacina contra rubéola, um plano para reduzir a população mundial (fonte: twitter, Extra**)

A verdade: 
A introdução da vacinação para reduzir a população mundial deve ser o plano de conspiração mais ineficiente da história, já que tudo o que a população mundial tem feito desde a introdução das campanhas de vacinação é crescer e crescer muito. Só a vacina contra o sarampo sozinha deve ter salvado algo como 17 milhões de vidas desde o ano 2000.

Há casos de lotes ou linhas de vacinas com problemas – por exemplo, por inativação ineficiente do patógeno ou utilização de um componente que causa alergia -, quando detectado, a utilização destes tende a ser rapidamente suspensa (para os que não acreditam em suspensão humanitária, pode pensar que a continuação do uso pode significar mais casos de processos indenizatórios) – embora o processo de indenização tenda a não ser tão veloz.

O zika, até o momento, está associado a 19 óbitos no Brasil. Seria, novamente, um processo altamente ineficaz de redução da população. Compare-se, por exemplo, com as mortes por homicídio no país, 53.646 em 2013, ou as 43.800 mortes no trânsito no mesmo ano. É menor até mesmo do que o número de pessoas que morrem por ano atingidas por raio no Brasil: média anual de 111 mortes.

O boato:
Vacina de HPV responsável pelo surto de microcefalia.

A verdade: 
O padrão espacial e demográfico também não dão apoio ao mito. Uma grande campanha de vacinação contra o HPV foi iniciada no primeiro semestre de 2014 e em todo o Brasil; se houvesse vínculo, o aumento dos casos deveria se dar entre o fim de 2014 e início de 2015 e não se concentrar nos estados do Nordeste.

Além disso, o público alvo foram meninas de 11 a 13 anos.

O boato:
A inexistência de epidemia de microcefalia nos países africanos prova que a zika não tem relação com a má formação.

A verdade:
Embora não haja registro de epidemia de microcefalia nos países africanos, a incidência da má formação é relativamente alta. Em um estudo com 3.196 recém-nascidos entre 2005 e 2007 no sudoeste da Nigéria, 340 apresentavam microcefalia, isto é, uma incidência de 10.638 casos a cada 100.000 nascimentos – compare-se com a média de 2010 a 2014 no Brasil de 5,38 casos a cada 100.000 nascimentos.

Mesmo em situação de epidemia, aqui, por enquanto, a média nacional está em 60,64 casos por 100.000 nascidos vivos. Nessa região da Nigéria, durante o período do estudo, há uma incidência 175 vezes maior do que no Brasil durante a epidemia. Lá, a maior parte dos casos possivelmente tem a contribuição da infecção por citomegalovírus (CMV): virtualmente 100% dos recém-nascidos estão infectados.

Um estudo feito entre 2004 e 2005 com crianças em idade pré-escolar em Kinshasa, República Democrática do Congo, encontrou, entre as 90 crianças controle (sem infecção pelo HIV), 1 caso de microcefalia. Se isso reflete a incidência ao nascer, corresponderia a uma taxa de 1.111 casos em 100.000.

Faltam estudos para saber se alguma fração desses casos deve-se à incidência de zika. Afinal, foi com a epidemia no Brasil que se aventou a possibilidade de associação – portanto, ninguém poderia pensar em pesquisar isso antes. Desconsiderando-se que a microcefalia possa ser uma manifestação nova de infecção por zika – os vírus, ao se espalharem por novas áreas, podem sofrer mutações e, com isso, induzir novos sintomas -, há várias outras possibilidades.

Pode ser que a infecção por zika por gestantes em países da África sub-saariana esteja também relacionada a casos de microcefalia fetal, mas esteja mascarado pela alta incidência geral da má formação. Como não parece haver uma flutuação na taxa de infecção por zika nesses países (repetindo que faltam informações para saber o quanto é verdade que realmente não haja essa flutuação), o nível de microcefalia não varia – permanece alto.

Pode ser que, como o ZIKV circula há mais tempo por lá, boa parte da população apresente imunidade, não havendo infecção nova entre as gestantes. Pode ser que a relação entre ZIKV e a microcefalia dependa de outros fatores – como infecção pregressa por determinados sorotipos de vírus da dengue.

O motivo exato de não se ter registro de relação entre ZIKV e casos de microcefalia em países africanos ainda precisa ser esclarecido, mas desde já parece claro que não se constitui em prova de que essa relação não possa existir – ao contrário, dados da Polinésia Francesa e do Brasil indicam a associação.

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O boato:
Carência nutricional – como falta de iodo e magnésio na dieta – como causa principal da microcefalia e fator de predisposição à microcefalia associada à zika.

A verdade:
A carência nutricional materna – sobretudo durante a gravidez – está associado a casos de microcefalia congênita. Mas não há registro de que tenha havido um surto de deficiência nutricional materna concomitante ao aumento atual dos casos de microcefalia.

A desnutrição também tende a tornar o organismo de modo geral mais vulnerável a infecções. Mas, novamente, não há registro de aumento súbito no nível de desnutrição dos brasileiros nas áreas com epidemia de zika e microcefalia.

Uma população bem nutrida certamente deve ser mais resistente a epidemias do que uma população com carências nutricionais, no entanto, dificilmente deixaria de haver uma alta do número de casos de zika e de microcefalia se, em tudo o mais sendo igual, o brasileiro tivesse acesso a uma dieta mais rica e equilibrada: epidemias de outras doenças como a dengue correlacionam-se muito mais com a população de vetores – no caso, os mosquitos – do que com o estado nutricional geral da população: o brasileiro não tende a ficar subitamente mal nutrido em época de calor e chuvas, quando os casos de dengue tendem a subir muito.

O boato:
Carência de vitamina D/falta de exposição ao sol como causa/agravante da zika.

A verdade:
Os padrões geográficos entre incidência de hipovitaminose D e febre zika não são compatíveis com a hipótese de relação causal entre elas. Se a falta de exposição ao sol tivesse uma influência significativa, então os estados do sul deveriam ser mais afetados do que os do NE.

Um dos textos assume que no Brasil haveria febre zika e não nos países africanos pela diferença de exposição à luz solar, mas não sabemos bem se realmente não há casos da doenças por lá pela falta de dados confiáveis – na epidemia recente, a transmissão autóctone de ZIKV foi registrada em Cabo Verde. Em anos passados, em vários países africanos houve casos reportados de febre zika, como na Nigéria, nos Camarões e na República Central Africana.

Curiosamente, na Nigéria não há registro de maior hipovitaminose D nas crianças com raquitismo, mas há registro de incidência bastante alta (83%) entre as mulheres da etnia fula. Entre as crianças sul-africanas, há insuficiência de vitamina D em 19% e em 7% delas há deficiência. A falta de exposição pode ser a causa especialmente por causa da vestimenta das mulheres de certas culturas e religiões, que devem ficar praticamente toda coberta. Há também carência da vitamina em função da dieta.

No Brasil, a hipovitaminose D é rara – ainda que possa ocorrer em nível subclínico, especialmente entre as mulheres idosas.

O boato:
Remédios homeopáticos para prevenção e tratamento de zika.

A verdade:
Nas epidemias de dengue há vários casos de uso de formulações homeopáticas, inclusive por autoridades sanitárias locais, para o tratamento da doença – em especial como auxiliar ao tratamento convencional (não como substituto). Mas, de modo geral, falta um bom acompanhamento do resultado.

Os melhores resultados disponíveis, no entanto, indicam que *não* há eficácia na utilização de tratamentos homeopáticos contra a dengue.

Considerando-se que meta-análises mostram que a homeopatia não é melhor do que o placebo para uma ampla gama de doenças e condições: câncer, TDAH, asma, demência, indução de trabalho de parto, entre outros, seria surpreendente que funcionasse contra a dengue. Do mesmo jeito seria surpreendente que funcionasse contra a febre zika.

De todo modo, como se trata de uma epidemia recente, não há nenhum estudo para o uso de tratamento homeopático contra a infecção por ZIKV; portanto, não há nenhum dado científico a sustentar sua eficácia. (No caso da dengue, nem mesmo associações médicas homeopáticas sustentam que a homeopatia previna a doença.)

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O boato:
O vírus zika chegou ao Brasil com os imigrantes haitianos.

A verdade:
O padrão temporal e geográfico são contrários ao mito.

Os haitianos entram pelo Brasil principalmente através do Acre, via Peru e Equador. A grande maioria dirige-se, então, para São Paulo, Minas Gerais e estados do Sul. Até 05/dez não havia registro nem epidemia de zika, nem de surto de microcefalia.

Além disso, esse fluxo migratório iniciou-se em 2010, com o grande terremoto de magnitude 7 que arrasou o país. E até o momento não há registro de surto de ZIKV no Haiti.

O boato:
O zika veio com os médicos cubanos.

A verdade: 
Mais um caso em que o padrão temporal e geográfico não bate com a alegação.

Os primeiros médicos cubanos do Programa Mais Médicos chegaram ao fim de 2013. O estado que mais recebeu médicos do país caribenho é São Paulo – com 1.914 profissionais atuando em agosto de 2014 (apenas o 15° entre os estados com mais suspeitas de microcefalia até 15/dez/2015); seguido da Bahia: 1.067 (3° em microcefalia), Minas Gerais: 1.012 (13°), RS: 808 (20°, com apenas um caso suspeito) e PR: 704 (sem casos suspeitos registrados até o momento). PE, com mais casos de microcefalia até 15/dez/2015, é apenas o nono estado com mais médicos de Cuba: 504.

Até o momento não há registro de ZIKV em Cuba.

O boato:
A causa da microcefalia é a sífilis. Ocultam isso porque gastam mais no combate ao mosquito da dengue do que com a prevenção da sífilis.

A verdade:
Infecção materna por Treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis, realmente é uma das causas de microcefalia. Mas não há registro de epidemia de sífilis no país. E o protocolo de diagnóstico de vírus zika nos casos suspeitos de microcefalia incluem testes sorológicos contra a sífilis.

De fato, a prevenção à sífilis dependeria apenas de uma mudança no comportamento sexual: uso de preservativo, principalmente. E há campanhas de incentivo ao sexo seguro, no contexto das DST (a sífilis é uma das várias DST) e aids. Mas o combate ao mosquito também envolveria basicamente uma mudança comportamental: as pessoas eliminarem locais de acúmulo de água da chuva em suas residências. E há campanhas para isso.

O boato:
A relação entre o vírus zika e o surto de microcefalia foi confirmada pelo governo com base em um único caso de detecção do ZIKV em tecidos de um bebê.

A verdade:
Na apresentação do “Protocolo de vigilância e resposta à ocorrência de microcefalia relacionada à infecção pelo vírus zika”, o MS lista os indícios que relacionam o ZIKV com o surto de microcefalia.

  • 1. Constatação de que os padrões de distribuição dos casos suspeitos de microcefalia pós-infecciosa apresentam características de dispersão e não indicam concentração espacial;
  • 2. Constatação de que os primeiros meses de gestação das mulheres com crianças microcefálicas correspondem ao período de maior circulação do vírus Zika na região Nordeste;
  • 3. Constatação, após investigação epidemiológica de prontuários e entrevistas com mais de 60 gestantes, que referiram doença exantemática na gestação e cujas crianças com microcefalia, sem histórico de doença genética na família e/ou exames de imagem sugestivo de processo infeccioso;
  • 4. Constatação de alteração no padrão de ocorrência de microcefalias no SINASC (Sistema de Informação de Nascidos Vivos), apresentando um claro excesso no número de casos em várias partes do Nordeste;
  • 5. Observações de especialistas em diversas áreas da medicina (infectologia, pediatria, neuropediatria, ginecologia, genética, etc.) de que há alteração no padrão clínico individual desses casos que apresentam características de comprometimento do Sistema Nervoso Central, similar às infecções congênitas por arbovírus em animais, como descrito na literatura;
  • 6. Evidência na literatura de que o vírus Zika é neurotrópico, demostrado em modelo animal e pelo aumento na frequência de quadros neurológicos relatados na Polinésia Francesa e no Brasil após infecção por Zika e confirmado em Pernambuco, após isolamento do vírus em paciente com síndrome neurológica aguda;
  • 7. Identificação de casos de microcefalia também na Polinésia Francesa após notificação do Brasil à Organização Mundial da Saúde;
  • 8. Constatação da relação de infecção pelo vírus Zika com quadros graves e óbitos a partir da identificação de casos que evoluíram para óbito em estados diferentes e ambos com identificação do RNA viral do Zika e resultados negativos para os demais vírus conhecidos, como dengue, chikungunya entre outros;
  • 9. Identificação do vírus Zika em líquido amniótico de duas gestantes cujo feto apresentava microcefalia, no interior da Paraíba;
  • 10. Identificação de óbitos de recém-nascidos com malformações e padrão sugestivo de infecção no estado do Rio Grande do Norte e outros Estados;
  • 11. Identificação de recém-nascido, no estado do Ceará, com diagnóstico de microcefalia durante a gestação e resultado positivo para o vírus Zika, tendo evoluído para óbito nos primeiros 5 minutos de vida.”

Pelos dados divulgados no boletim do dia 15/dez, dos casos suspeitos de microcefalia já analisados, em 134 foi diagnosticada a zika e em 102 houveram descarte da presença do vírus. Outros 2.165 casos estão sob investigação.

O boato:
A recomendação pelo Ministério da Saúde para que as mulheres não engravidem é para controlar as mulheres.

A verdade:
O MS *não* fez recomendação para que as mulheres não engravidem. Nas orientações às gestantes, o MS diz explicitamente:
“Não há uma recomendação do Ministério da Saúde para evitar a gravidez. As informações estão sendo divulgadas conforme o andamento das investigações. A decisão de uma gestação é individual de cada mulher e sua família.”

Agora, de fato, há profissionais de saúde, inclusive ligados aos órgãos do MS, que fazem a recomendação de evitar a gravidez enquanto houver a epidemia de zika. Mas é uma recomendação, não uma imposição. A decisão final é da mulher.

Fontes:

 

 

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