Pare de querer vestir o brasileiro como um europeu

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“Contemporaneamente, a moda visa o conforto e o bem estar. Seria interessante pensar em uniformes adequados, que cumprissem com sua função, mas com conforto.” –  Rafael Rodrigo Soares, professor do Instituto Federal de Santa Catarina

Aconteceu no verão passado. Estava no Rio de Janeiro quando fui por em dia minha leitura de revistas e sites masculinas. Foi quando li uma matéria com o seguinte título: “Blazer é a tendência para homens no verão 2015”.

Faziam 40° e, mesmo dentro de um apartamento e com um ventilador virado para o meu rosto eu ainda passava calor. “Como caralhos esses filhas da puta querem que eu vista um blazer nessa temperatura?”, pensei.

Talvez em São Paulo e algumas outras cidades do sul do país esse tipo de comentário e tendência faça sentido, mas e o resto do Brasil?

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Não é de hoje que isso acontece. Parte da imprensa de moda masculina parece se focar apenas em grupo de homens : Aqueles que moram na região sul/sudeste; tem pele branca e cabelos lisos e muito, mas muito dinheiro para gastar. Falo isso por experiência de consumidor e de produtor de conteúdo.

É só reparar em matérias com “tendências para cortes de cabelo” que quase sempre esquecem que nem todo mundo tem cabelo liso para fazer um corte pompadour ou em matérias de grandes revistas e blogs que indicam produtos cujo preços parecem piada.

Lembro que um dos blazers do verão, por exemplo, custava a bagatela de R$899. Ou seja, você vai pagar um salário mínimo por um produto que dificilmente vai conseguir usar sem ficar incomodado.

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Outra grande dificuldade que vejo na é hora de produzir conteúdo. Mesmo com o melhor banco de imagens, é difícil encontrar fotos de modelos negros ou de cortes de cabelo para cabelos crespos.

Até mesmo procurando material de divulgação, são poucas as marcas que utilizam o mesmo número de modelos brancos e negros, assim, falta material para quem produz conteúdo. É preciso paciência e dedicação para conseguir encontrar imagens que atendam a esse público também.

Mas confesso minha parte da culpa também. Eu mesmo já tive preguiça muitas vezes e fui pelo caminho mais fácil – e acredite, ele é muito mais fácil.

Ctrl+C e Ctrl+V da gringa

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É muito mais simples abrir uma matéria de um GQ, Maxim ou Esquire americana ou inglesa e reproduzir o que os caras produzem do que pensar em como traduzir aquilo para a realidade brasileira. Até mesmo entres nós mesmos cobramos esse padrão absurdo.

Um exemplo é a forma como há anos mulheres conseguem trabalhar de regata, saias e rasteiras, mas foi um parto para algumas empresas mais informais liberarem seus funcionários a usarem bermudas.

Foi com o tempo e muito contato com o público que reparei como o brasileiro é carente de alguém que fale com ele no contexto realidade em que vive.

Seu Jorge

Alguns pontos chave que precisamos pensar na hora de falar de  estilo para o homem brasileiro:

  • O Brasil é um país onde faz muito calor, tanto de dia, como de noite;
  • Apesar de boa parte da renda estar concentrada na região metropolitana de São Paulo, os homens de outras regiões do país também querem se vestir bem;
  • 66% das famílias brasileiras ganham até R$2034 por mês. Logo, é bacana recomendar marcas e produtos que se encaixem neste realidade;
  • 51% da população brasileira são formados por negros e  – muito provavelmente, acredito – com cabelo crespo;
  • O país tem um litoral muito grande, com grandes cidades localizadas na beira da praia como o Rio de Janeiro, Salvador, Fortaleza, etc. O jeito que um cara se veste neste ambiente difere de uma realidade como a de São Paulo.

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Dentro destes pontos é preciso entender que o jeito que o homem brasileiro se veste difere e muito do padrão norte-americano e europeu. Pode ficar bonito na foto do Instagram e na capa da revista, mas no dia-a-dia é quase impraticável.

Não é difícil. É só olhar para a moda feminina que nos últimos anos tem incorporado cada vez mais peças que condizem com a nossa realidade: De croppeds, saias, shortes, tecidos leves, blusinhas, rasteirinhas… Tudo com tecidos leves, cores e estampas que refletem a cultura brasileira (dá uma olhada nos looks da blogueira Carla Lemos)

Cabe a nós – me incluo nesse pacote também – que produzimos conteúdo e falamos de moda, botar a mão na cabeça e traduzir o clima e a realidade brasileira. E pelo amor de Deus, se tiver mais de 40°, deixa o blazer em casa.

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