Será que dá para medir afeto?

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Ontem estava no aeroporto esperando dar o horário do embarque. Me sentei próximo ao portão de entrada dos passageiros, como de costume. De lá, gosto de olhar as pessoas interagindo. É divertido ver a vida como um grande laboratório e os seres humanos como cobaias.

A primeira interação que observei foi de um casal. Ele mais alto que ela, olhou em seus olhos, suspirou e a abraçou. Ela imediatamente correspondeu abraçando de forma demorada, como se quisessem viver o máximo possível aquela sensação. O ato foi seguido por alguns beijos enquanto paravam para olhar fundo um ao outro.

A medida que a interação ia ocorrendo, ela posicionou os pés em direção a saída e ele em direção ao portão de embarque, como indicativo do desejo de se afastar. Mas, para minha surpresa, o abraço permanecia. Um de frente pro outro, parecia que seus corpos estavam divididos entre duas vontades.

As pernas diziam: “Vamos embora, você vai perder o avião”, enquanto o lado superior do corpo permanecia agarrado como se dissesse: “Permaneça o máximo que puder, eu sei que vou sentir falta”. Parecia coisa de cinema.

A expressão facial dava uma mensagem de “cada segundo e precioso”, os olhos se fechavam com o intento de diminuir qualquer estimulo que pudesse atrapalhar aquela sensação. Em meio ao corre-corre do local, dão o ultimo beijo, ele vira e segue andando e ao mesmo tempo olhando para trás, na espera de sentir mais um pouco do contato. Pra mim aquilo parecia uma cena de Titanic versão despedida no aeroporto.

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A segunda interação foi de um senhor mais velho com uma adolescente. Os dois pareciam pai e filha. Ela carregava nas costas uma mochila de viagem e roupas estilo aventureira. Seu pai lhe dá um abraço, fala algumas coisas seguidas de um empurrão sem graça no ombro como se dissesse: “Se cuida e não aceite comida de estranhos…”. Um pouco sem graça, trocam um sorriso inibido. Ele contendo alguma emoção, ela com uma cara de “Ahh, tá bom pai”.

“Que interação sem graça”, pensei. O cara deve estar com pressa de ir ao trabalho e a filha parece não se importar com o velho. Já estava desistindo de observar, mas como não tinha nenhuma outra interação no momento, persisti.

Em meio ao tumulto, ela vai se distanciando, dá um tchau sem graça e vira em caminho ao embarque.

Foi quando algo me chamou a atenção. Enquanto ela caminhava, o pai permanecia parado olhando pra ela. “Por que ele está olhando? Eles já não se despediram?”, pensei. Mas ele continua a observando, até a filha chegar a uma pequena curva de onde não seria possível vê-la, mas ele se esforça e dá alguns passos pro lado esticando o pescoço com o intento de continuar olhando, até perdê-la completamente de vista.

Aquilo na minha mente foi claro como uma demonstração de afeto. Um afeto tímido, mas um afeto.

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Na minha ignorância, a principio julguei como mais afetuoso o casal. Mas depois pensei, como podemos mensurar uma demonstração de afeto? Talvez os dois da última interação apenas tinham uma cultura diferente da minha.

Atualmente percebo que as pessoas tentam formatar o outro: “Carinho se faz abraçando”, “Se ele gostasse de mim ele diria que me ama”, “Se ele urina na tampa do vaso é porque não presta atenção no que eu digo”, “Se ela não presta atenção no que eu digo então ele não me ama”…

Colocamos tantas padronizações nas relações que consequentemente amarram nossa percepção de carinho e afeto a situações específicas. Condicionamos algo tão subjetivo e individual a um padrão nosso, um conjunto de leis internas que só dificultam a nossa percepção do carinho verdadeiro.

O ser humano tem uma necessidade real de afeto, assim como de se alimentar, mas quando você restringe sua dieta afetiva, automaticamente diminui a probabilidade de se sentir amado.

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Às vezes, por algum motivo (consciente ou inconsciente), você formulou que queria ser amado de forma X e Y, mas algumas pessoas só vão conseguir te dar Z e W. O que fazer? Você pode jogar fora o Z e o W ou pode parar de exigir que o mundo e as pessoas funcionem do seu jeito e aceitar o intento do outro.

Você pode escolher, sugar e aceitar toda e qualquer demonstração de afeto, como quem se nutre de qualquer sentimento positivo.

Ou pode permanecer esperando que a demonstração seja apenas do seu jeito. Mas cuidado, desta forma pode acabar anêmico emocionalmente.

► Texto escrito por Júlio Alves. Psicólogo clínico especialista em terapia cognitivo-comportamental, se interessa por estudos sobre atração interpessoal, relacionamentos e psicologia em geral.

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