O Homem de Alabama perdeu seu RG – sobre os machões de antigamente

Os machões que lotaram a sociedade nos tempos passados perderam seu espaço. Entenda!
“Homem do Alabama. Ele é forte, ele é demais! Ele joga boliche, ele bebe demais! Homem do Alabama!”, canta o jingle do brinquedo mais machão dos desenhos animados

O jingle utilizado pelo desenho animado South Park para vender um fictício boneco pode ser exagerado, mas caracteriza os machões que lotaram a sociedade nos tempos passados. Um brutamonte, que tem o refúgio dos problemas na bebida alcoólica e a masculinidade nos próprios punhos.

Um exemplo de comercial que nunca seria exibido na televisão – só em 2013, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) vetou mais de 180 comerciais voltados às crianças -, mas é a exemplificação de um ser em extinção. Não que isso seja ruim, pelo contrário, mas demonstra a necessidade do novo machão, agora remodelado, encontrar espaço na sociedade.

Neste século, quase um adolescente, o Homem do Alabama perdeu principalmente o espaço como ser dominador. É só lembrar que as mulheres conquistaram espaço no mundo extremamente machista. Um simples exemplo é olhar uma das maiores redações do país e ver ao meu lado apenas moças. Isso sem citar os já clichês: nossa presidente é mulher, a diretora-gerente do FMI é mulher, a presidente da Petrobrás é mulher, entre outros. Elas dominaram o mundo, caro machão…

Como demonstrou um estudo do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), nos Estados Unidos, as mulheres também já bebem mais que os homens. Aliás, elas conseguem fazer isso com muito mais ousadia que um cara peludo sentado em um balcão. Esqueçam os potes de sorvete, o sofá, as séries românticas e muito choro.

Elas bebem, dançam e descem até o chão em vestidos tão curtos quanto à imaginação do meu pai em ver essa cena quando jovem. Elas afogam as mágoas, melhoram o próprio ego e ainda conseguem acabar com a moral de quem as deixou na fossa – se você está duvidando, entre no Instagram da sua ex-namorada e veja como se sente.

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“Se ela sozinha já é um perigo, imagina com as amigas!”, cantam as mulheres em baladas sertanejas pelo país.

Aliás, vamos ser sinceros: são elas que comandam as relações. Você pode pensar: “sou eu que escolho para onde vamos”, “sou eu que resolvo os problemas”, “sou eu que faço isso ou aquilo”. Antes você fazia isso por imposição, hoje por opção… das mulheres! Aliás, ela te escolheu justamente por você dar essa segurança. O suporte para ela pode viver em paz, sem arrepiar nenhum fio de franja com problemas banais.

Possivelmente, isso tenha alguma relação com a sobreposição do Culto à Personalidade ao Culto ao Caráter, como reza os pensamentos do historiados estadunidense Warren Susman. Até meados do século XX, não era tão importante quanto alguém era fascinante em público, mas o quanto se comportava na vida privada. Com a inserção do Culto à Personalidade − palavra que não existia até então −, passaram a se destacar as pessoas com bons olhos a partir da visão de desconhecidos.

A sociedade se atraiu por seres ousados e divertidos. Sendo assim, se antigamente, “as mulheres que gesticulassem e falassem muito alto ou olhassem de forma imprópria para estranhos eram consideradas vulgares”, começou-se a esperar que “as mulheres caminhassem na tênue linha entre o apropriado e o ousado”.

Talvez, esses dois pensamentos publicados no livro “Quiet: The power of introverts in a world that can’t stop speaking”, de Susan Cain, expliquem o começo da conquista de território das mulheres fortes em comparação aos machões de botinas. O Homem do Alabama não sabe mais quem é.

É uma diversidade de identidades a disposição do homem, que o mesmo se sente mais perdido do que em um guarda-roupa feminino. Como já foi escrito em um artigo do psicólogo Frederico Mattos, “A dificuldade de colocar em palavras seus medos mais terríveis foi tratada como um problema qualquer.

Numa realidade complexa e com muitas sutilezas emocionais, o homem fica paralisado, pois não foi treinado para lidar com a amplitude de identidades à nossa disposição”. E Mattos conclui com o principal motivo da extinção do personagem deste texto: “Ser apenas um macho-provedor está longe de dar conta do recado”.

Sem Identidade, sem ajuda

O Homem do Alabama já não sabe ser mais o mesmo, pois hoje ele seria discriminado irrestritamente. Uma crise de identificação que vai crescendo de pouco em pouco, remoendo a cabeça do cidadão. Como alguém que cresceu para ser um cara bem resolvido está com dilemas mentais? O homem sabe que precisa de ajuda, mas não esquece que cresceu com os ensinamentos de O Poderoso Chefão: “Nunca diga o que sente para alguém de fora da família”. Indicar um psicólogo é chamar o cara de louco.

O psicólogo é tão temido quando um urologista. O homem não está acostumado a contar os problemas para os outros. No máximo, comenta em uma mesa de bar − em tom de deboche − alguma dificuldade, porém é essencial deixar claro que não isso não é algo que lhe tira o sono. Se não pedimos ajuda quando simplesmente nos perdemos, imagine para o resto…

Um exemplo do problema do homem com o divã pode ser analisada no próprio psicólogo. De acordo com um artigo de Benedict J. Carey, repórter científico do jornal estadunidense The New York Times, quatro a cada cinco diplomas em psicologia são conquistado por damas.

É quase uma “feminilização” da saúde mental. Será que um homem se sentiria bem ao expor para uma mulher os problemas sexuais ou um fracasso financeiro? Até pode ser machismo, mas quem nunca ouviu alguém dizer que, por motivos específicos, prefere ser atendido por vendedores de determinado sexo em lojas de roupas. A dimensão é outra, mas a mesma regra vale para Chico e Francisco.

Por outro lado, esse mesmo homem estaria confortável ao expor para um doutor que sofre de uma doença amplamente feminina, como a depressão pós-parto? Sim, você não leu errado.  Esse mal atinge um a cada cinco homens. No caso das mulheres, o problema se deve às alterações hormonais e condições psíquicas maternas. Já os papais adquirem a depressão pela ansiedade de dar uma boa vida para o filho, além do aumento de outras responsabilidades. Novamente, “ser apenas um macho-provedor está longe de dar conta do recado”.

Outro número que demonstra o pavor do homem ao tratar dos problemas psicológicos está na produção dos medicamentos para esse fim. O Centro de Pesquisas Dr. Hamilton Grabowski, em Curitiba, recebe pacientes das mais variadas idades para um programa de estudos de medicamentos antidepressivos. A cada 40 pessoas, apenas uma é homem. Consequentemente, teremos um remédio mais analisado e, talvez, mais adaptado às necessidades femininas.

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Alguém me chamou de mariquinha, é isso?

E, se você considera que todo esse papo de falta de identidade e problemas psicológicos é coisa de mariquinha, porque não diz isso na cara de Roy Nelson, o gordinho sensação do UFC?  O lutador já admitiu ter sofrido de depressão na preparação para uma luta. Motivo: o atleta se sentia sozinho. “Quando o seu treinamento é uma porcaria, o seu treinador não está contigo, seus companheiros de treino não estão lá, tudo deu errado”, desabafou Nelson. “Preciso ser honesto. Essa é uma das poucas coisas que eu gosto de ser: honesto”, concluiu o lutador com mais cara de lenhador macho-alfa do UFC, assumindo a depressão.

O antigo Homem do Alabama (ainda) sobrevive…

Muitos dizem que o estresse é a doença do século XXI. Por outro lado, o novo homem parece não reconhecer esse mal que o atinge nosso cotidiano. O estresse é a última entre as principais doenças que preocupam os machões. De acordo com uma pesquisa da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia) − já dá arrepio só de ler o nome da associação −, apenas 3% dos cabras-machos se preocupam com o estresse. Diferente da disfunção erétil, que é temida por 16% dos entrevistados. O receio de falhar no sexo perde apenas para o câncer e está na frente do infarto, acredite. Para que coração, se o “brinquedinho” está funcionando?

Aliás, qual é a importância do nosso emprego em relação a uma vida sexual boa e a ausência de par de chifres? Em uma das mais recentes pesquisas da SBU – urologistas, de novo eles – 28% dos entrevistados têm como maior receio a impotência sexual. Quase a mesma porcentagem do receio de ser traído (25%). Perde o emprego fica apenas com 18% dos medos. Agora, não conseguir pagar as dívidas, só 4%. É o Homem do Alabama garantindo o emprego dos operadores de telemarketing que trabalham no setor de cobrança.

Quem é o novo Homem do Alabama?

Se as mulheres já mandam no relacionamento e em muitas empresas, se as garotas já bebem mais que os rapazes e se o mundo não se resolve mais na porrada, que fim levou o Homem do Alabama? Levando em consideração que Charles Darwin – que ostentava uma bela barba – nos explicou na Teoria da Evolução, o Homem do Alabama se reinventou e se adaptou a uma nova realidade.

Vamos tentar identificar esse homem pela visão das mulheres e também pela necessidade do próprio homem em continuar com o jeito brucutu que aprenderam com os pais e avós. Primeiramente, na visão feminina, dois caras foram muitos expostos nesse biênio. O mais recente chama-se Augustus Waters, que ficou famoso nos livros, mas ganhou ainda mais exposição quando foi parar na tela dos cinemas, no filme “A Culpa é das Estrelas” (John Green).

Um puro exemplar do homem que ainda impressiona pelo seu interior, como reza o Culto ao Caráter. Tem uma história de vida comovente, é um vencedor − não vou entregar a história toda, relaxe −, tem gestos marcantes, é sensível e solta frases românticas, como “eu sei que o amor é apenas um grito no vazio e que o esquecimento é inevitável”. As mulheres choram e acham sensacional, “ok?”. Tudo lindo, tudo maravilhoso, se esse não fosse o tipo de perfil que, definitivamente, não combina com o Homem do Alabama.

O outro perfil é o de Christian Grey. Um cara famoso pela sequência de livros que começou com “O Cinquenta Tons de Cinza” (E. L. James) e tem tudo para virar, no ano que vem, o maior desejo das mulheres com o lançamento do longa sobre a história. Um corpo atlético, mas não muito forte. Ousado. Bem sucedido − o que nunca foi item obrigatório para um bom Homem do Alabama. Trata as mulheres de maneira firme ou, ás vezes, até com contratos pra lá de empresariais − calma, também não vou contar muita coisa. Admira pares de pernas femininos e ama sexo.

Está certo que o Homem do Alabama teve que largar a cueca larga bege por uma cueca modelo boxer. Passou a ter que aparar a barba com maior frequência e aprender melhor como se comportar em um jantar. Também cresceu nos empregos e se tornou líder. Porém, ser um cara idolatrado pelas mulheres e que pilota aviões é muito para um ogro e “cabra do mato”. Ele ainda prefere o simples, o chão batido, a botina marrom de terra. Ele quer Alabama e não Nova Iorque.

A personalidade que, talvez, tenha quesitos de um Homem do Alabama é José Mujica, presidente do Uruguai. Porém, para não entrar na esfera política, vou expor outro exemplar que está perto da evolução do homem: Keanu Reeves. Você já deve estar cansado de saber que ele vive andando de metrô e que já doou milhões de reais para maquiadores e instituições que fazem o bem pelo mundo. De qualquer modo, não é só por isso que ele seria a personificação do Homem do Alabama moderno.

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Até a velha bonita é usada pelo ator canadense

Keanu Reeves é um cara reconhecido pelo trabalho − foi até homenageado com uma estrela na calçada da fama − e conseguiu respeito em diversos lugares. Assim como um bom brutamente, é amante de bebidas e até se internou em uma clínica para tratar desse mal. É viciado em motos e participa de corridas automobilísticas. Amante de mulheres, já se relacionou com nomes de destaque, como Sandra Bullock, Sofia Copolla, Cameron Diaz e Charlize Theron. Já teve que, inclusive, provar que não era pai de uma suposta pimpolha que apareceu por aí.

Um exemplar do Homem do Alabama no formato mais original. Porém, por outro lado, já demonstra as mudanças dos novos tempos. Mesmo sem admitir, muitos dizem que ele sofre de amor por Theron. Ele teria ficado frustrado com  um novo namoro da atriz. Reeves também demonstra preocupação com as causas mundiais, como o estudo do câncer. É comum vê-lo pelas ruas dos Estados Unidos com uma aparência de abatido e, por fim, já confessou ter tido depressão. “Passei por uma crise existencial”, revelou o ator do filme “Matrix” (1999).

O novo Homem do Alabama necessita ser na essência o mesmo de antigamente, porém sabe que tem que mudar as atitudes. Já não há mais espaço para um ser agressivo, que tem como objetivo de vida virar madrugadas em um balcão de boteco e que é um brutamonte que todos temem. Por outro lado, há a necessidade de ainda manter a masculinidade a pleno vapor, seja com atitudes mais bruscas, um papo menos requintado e a liberdade de viver como dominador das relações.

Não que seja necessário ter o sentimento de “eu sou o homem, mando nessa joça e faço o que quiser!”, mas a confiança de saber que ainda pode se adaptar no mundo atual e ter um espaço forte ao lado das mulheres que estão conquistando o mundo. Ele também precisa chorar, mas continuar querendo que ninguém veja essa cena. Quer tentar compreender a própria mente sem a necessidade de livros de autoajuda.

Não há uma identidade formada. O Homem do Alabama ainda não sabe se definir. Quais são os outros exemplos desta espécie? Quais são as suas características?  Nesse mundo atual, temo que tudo isso seja definido pelas mulheres − o que é o mais provável.

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► Texto escrito por Rodrigo Alves, Jornalista. Acha mais divertido fazer do que ver televisão. Amante de histórias, mas sem paciência para pessoas. Esportista, mas asmático. Vive para saber se Deus ajuda quem cedo madruga / Instagram: @rodrig_alves

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