O esquema (ou como entender a corrupção)

Como entender a cultura da corrupção

Existe um problema quando falamos de corrupção. Nós enraivecemos com bandidos como Roberto Jefferson, José Dirceu, Paulo Maluf, José Genoino, entre outros amiguinhos que adoram tirar o deles quando estão no poder. Porém, fechamos os olhos para as pequenas transgressões que nós mesmos cometemos no dia-a-dia.

Eu acredito que a melhor forma de você entender um povo é você analisa-lo em microambientes. Lembro que entendi plenamente o que é a corrupção e o jeitinho brasileiro quando trabalhei em um bar/restaurante em Londres.

Sim, apesar de ser fora do país, a maioria de seus funcionários eram aqui da terrinha. Lá entendi um pouco mais dessa nossa incrível vontade de tirar vantagem. Foi onde conheci ‘O Esquema’.

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Quando se trabalha em um bar que serve cervejas em pints é muito fácil dar a desculpa que você não sabe quantos copos ao certo um barril pode encher. Pode haver algum desperdício na hora de servir, desregularem a válvula de gás, entre outros problemas que só um bar lotado pode e vai ter.

Em uma noite lotada, o bar de nosso restaurante podia receber de 500 a 1000 pessoas, já que ele ficava dentro de uma arena de shows em Londres. E, para completar, no Reino Unido você paga a cada bebida que pega no bar. Ou seja, vai tomar um pint? Você paga por ele depois pega. Não tem muito esquema de comanda como fazemos por aqui.

Então temos um bar lotado, clientes pagando com dinheiro e uma certa dificuldade de mensurar quantos pints podiam ser servidos por barril. Aí tinha esses dois caras que trabalhavam no bar comigo.

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Um cliente chegava pedia 4 pints no balcão. Um deles ia, cobrava os mesmos do cliente, porém, na hora de dar a baixa, registrava apenas 3. E ia indo assim o expediente inteiro.

No fim do dia, pouco antes do gerente vir fechar o caixa, ele fazia uma conta e retirava a diferença que não tinha sido cobrada em nota.

Por exemplo, se no total do dia ele cobrou 100 libras dos clientes, apenas 75 eram registradas. Logo, 25 eram dele e do comparsa. E não, não eram só 25 libras que eles tiravam por noite. Era bem mais do que isso.

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Estamos falando de um cara que não tinha terminado o segundo grau, mas entendia muito bem os conceitos das contas básicas. Ele sabia somar seus lucros, subtrair do caixa, dividir os lucros com o amigo e multiplicar os seus ganhos por mês.

Não parava por aí. Um dia, fazendo a contagem de estoque com um deles, vi que ele deixou de marcar uma garrafa de whisky. Quando perguntei o porquê, ele disse que aquela era para ele.

Acontece que o rapaz se aproveitava do amplo estoque do bar para levar uma vez ou outra um Jack Daniel’s para casa e vender para brasileiros no e-bay para tirar um por fora. Quando ele reparou a minha cara de choque ao ver o que ele fazia, posou a mão em meu ombro e disse: “Esquema sempre tem. Se não tem, é porque você não está sabendo olhar”.

E não era mentira. Quando parei para ver melhor, descobri que todos os setores dos restaurantes aplicavam os seus pequenos truques e malandragens. O esquema estava em toda parte.

O esquema (ou como entender a corrupção)

O gerente também fazia o seu caixa dois, aproveitando dos clientes que pagavam em dinheiro para deixar fora do registro do caixa e tirar o seu. Quem trabalhava na cozinha não tinha acesso direto ao dinheiro, mas também dava os seus pulos.

O esquema era servir marmitas para os seguranças da arena em troca de poder entrar de graça nos shows pela porta dos fundos.

Até mesmo havia rumores de que o dono da rede de restaurantes conseguia seus produtos com um esquema de empresas de fachada que ajudavam ele a burlar a taxas de importação da Inglaterra.

O último grande que descobri foi o que mais me impressionou. Alguns brasileiros – inclusive que trabalhavam comigo no restaurante – se mudavam para o Reino Unido, moravam por dois, três anos juntando uma grana e conseguindo linha de crédito no banco.

Quando tinham um limite legal para sacar, pegavam toda a grana que podiam, transferiam para o Brasil e nunca mais voltavam – ou pagavam a dívida.

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Nenhum deles achava que estava fazendo algo de errado, ou até mesmo corrupto. Aquilo era parte da cultura deles.

“Ora, eu não ganho o suficiente e me botam para cuidar do dinheiro. Claro que eu posso pegar algum para mim.” Um absurdo, né? Mas agora pensa no seu cotidiano.

Se não foi você, com certeza tem algum conhecido que comprou a carteira de motorista, subornou um policial, sonegou um imposto, e mesmo assim, ainda reclama do homem – ou da mulher – que rouba lá em Brasília.

E assim é a corrupção na nossa sociedade. Ela está enraizada em nossos valores mais básicos. Desde desligar o medidor de água a sonegar impostos.

Os atos de nossos políticos são parte da cultura da malandragem e tirar vantagem que perpetuamos todos os dias. Não vai mudar nada enquanto não mudarmos os valores básicos de nossa sociedade.

Até lá, continuaremos trocando um corrupto por outro cara que também quer levar vantagem. E não adianta criar bodes expiatórios. Fomos nós mesmos que criamos ‘O Esquema’. Hoje pagamos a conta por ele.

PS: Um amigo veio perguntar o que eu fiz quando descobri o esquema. Bem, eu fiz minha parte e denunciei para a gerência do restaurante – o mesmo que também tinha seu caixa 2 – que acabou demitindo os dois caras.

Infelizmente, isso fez com que eu quase entrasse em uma briga e me gerou algumas inimizades dentro daquele ambiente de trabalho. Uma prova que mesmo fazendo o certo, você pode ser visto com uma pessoa que fez a escolha errada. Uma pena.

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