Entenda a importância do Setembro Amarelo na prevenção do suicídio

Hoje, o suicídio no Brasil já faz mais vítimas que a AIDS e mata mais do que vários tipos de câncer e, mesmo assim, muitas pessoas ainda não discutem o assunto e têm medo de encarar as doenças psicológicas que, muitas vezes, levam à morte.

Nos últimos anos, a taxa de suicídio no estado de São Paulo cresceu 30% e os homens são as maiores vítimas.

Segundo uma pesquisa recente da OMS (Organização Mundial da Saúde), no Brasil, a cada 100 mil pessoas, quase sete tiraram a própria vida no ano de 2012. Além disso, para cada suicídio podem ter ocorrido mais de 20 outras tentativas que não deram certo.

A vergonha, o desconhecimento e o desinteresse das vítimas e de seus familiares e amigos em tratar o problema são catalisadores que precisam ser combatidos. Essa é uma das metas do Setembro Amarelo, campanha de prevenção de suicídio que chegou no Brasil em 2014.

O movimento acontece durante todo o mês de setembro no mundo todo e esse período foi escolhido porque o dia 10 de setembro é o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio.

Iniciado no Brasil pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), o Setembro Amarelo realizou as primeiras atividades no ano passado e, este ano, ganhou ainda mais visibilidade em âmbito nacional.

A campanha

Em 2015, a campanha iluminou em tons de amarelo monumentos como o Cristo Redentor, o Congresso Nacional e a ponte Juscelino Kubitschek. Mas, além das intervenções visuais, a proposta do Setembro Amarelo é fazer ações de rua, como caminhadas e passeios ciclísticos, para alertar sobre a importância de discutir o tema.

Ações nas mídias também estão sendo vinculadas desde o início do mês, e cada vez mais pessoas estão aderindo ao objetivo da campanha.

O principal objetivo do Setembro Amarelo é quebrar o tabu que existe envolvendo o suicídio. Doenças graves, como o câncer e a AIDS, já passaram por períodos nebulosos e foram combatidas através do conhecimento.

Mas, para isso, foi necessário um esforço coletivo, liderado por pessoas corajosas e organizações engajadas. Quebrar tabus não é fácil, mas é preciso esclarecer, conscientizar e estimular a prevenção para reverter situações críticas como as que nós estamos vivendo.

O problema de saúde pública que estamos encarando agora é causado, principalmente, pelo desconhecimento das pessoas sobre as causas do suicídio e os tratamentos para evitar que ele aconteça. Muitas vezes, familiares e amigos não reconhecem os sinais de que alguém querido vai tirar a própria vida. Aliás, muitas vezes, a própria vítima não entende que precisa de ajuda e acaba se afundando cada vez mais em uma solidão desesperadora.

Por isso, é preciso falar sobre suicídio e discutir a depressão abertamente.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 casos de suicídio poderiam ser prevenidos se a pessoa buscar ajuda e se tiver a atenção de quem está à sua volta.

Mas como fazer isso se a vítima não entende o que está sentindo e se os seus familiares e amigos não reconhecem os sinais?

Como reconhecer os sinais

Existem alguns sinais de alerta que podem salvar a vida de quem você ama. Veja quais são os principais:

  • Reconheça os padrões de pensamento suicidas. Normalmente, quem pretende tirar a própria vida apresenta os seguintes padrões: elas remoem pensamentos obsessivamente e não conseguem parar, se sentem extremamente sem esperança, vêem a vida como algo sem significado e, normalmente, descrevem uma sensação de nevoa nos pensamentos que dificulta a concentração;
  • Reconheça as emoções suicidas. Elas podem se manifestar em alterações extremas de humor, excesso de raiva ou sentimento de vingança, ansiedade, irritabilidade e sentimentos intensos de culpa ou vergonha. Pessoas com tendência suicida normalmente se sentem um fardo para os outros e acreditam que estão sozinhas mesmo quando estão perto de outras pessoas;
  • Reconheça avisos verbais. Quando alguém começar a falar muito sobre morte, preste atenção. Algumas frases são frequentes: “a vida não vale a pena”, “não vou mais ficar triste porque não vou estar mais aqui”, “você vai sentir minha falta quando eu for” ou “ninguém vai sentir minha falta se eu morrer”, “não aguento a dor, não consigo lidar com isso”, “estou tão sozinho que queria morrer”, “não se preocupe, eu não vou estar por aqui para ver o que vai acontecer”, “não vou te atrapalhar mais”, ou “queria não ter nascido”;
  • Fique de olho na melhora súbita. Muitas vezes, o maior potencial para o suicídio não é o fundo do poço, mas a súbita sensação de melhora. Isso pode indicar que a pessoa aceitou a decisão de encerrar a própria vida e está aliviada por ter um plano. Então, se uma pessoa depressiva e com grandes tendências suicidas melhorar de uma vez, é melhor tomar providencias imediatas;
  • Reconheça mudanças de comportamento. Quando você sentir que a pessoa está querendo fechar pontas soltas, doar seus pertences, fazer arranjos financeiros ou visitar vários entes queridos de uma só vez, é hora de intervir;
  • Reconheça comportamentos irresponsáveis e perigosos como o uso excessivo de drogas (legais ou ilegais), direção imprudente e sexo desprotegido com vários parceiros;
  • Procure por ferramentas possíveis para o suicídio. Por exemplo: se a pessoa comprou uma arma ou remédios sem motivo aparente, é hora de pedir ajuda;
  • Perceba mudanças extremas na rotina, repare se a pessoa parou de frequentar, sem motivo aparente, eventos e lugares que sempre gostou de visitar. Quando alguém pára de praticar atividades que, até então, lhe davam prazer, é um grande sinal de alerta;
  • Preste atenção na energia: pessoas depressivas ou suicidas normalmente têm pouca energia para tarefas básicas, têm dificuldade de tomar decisões e, por exemplo, falta de vontade de se relacionar sexualmente;
  • Não ignore fatores de risco: morte de um ente querido, perda de emprego, bullying e separações traumáticas podem afetar e intensificar desejos suicidas. Um histórico de abuso físico ou sexual também pode servir de gatilho, assim como tentativas prévias de suicídio.

A depressão

Já fizemos diversas matérias sobre depressão e como identificar a doença e tratá-la da maneira correta. Quem sofre desse distúrbio precisa de acompanhamento médico e químico. Um quadro depressivo não é curado com conversa, é curado com remédios para compensar a falta de substâncias químicas no cérebro.

+ Precisamos falar sobre depressão
+ Depressão masculina: como reconhecer o mal no homem

Por isso, não é preciso ficar com vergonha e nem se sentir inseguro. Depressão é uma doença e, assim como você trataria uma gripe, um resfriado ou um câncer, você deve tratá-la de acordo com a orientação médica.

Como conversar

Conversar com alguém que tenha tendências suicidas pode parecer complicado mas, para saber o que dizer e como agir, basta ter paciência e escolher o tom certo.

Quando alguém estiver exibindo sinais de risco, é fundamental falar de forma carinhosa e sem julgamentos. Escute com paciência, não julgue, não diga que a pessoa está fazendo drama ou exagerando, e nem fale que ela precisa ser mais forte.

Não diga que ela deve se sentir com sorte pela vida que tem, e nem a faça se sentir envergonhada ou menor pelos seus pensamentos suicidas. Ao dizer esse tipo de coisa, você vai piorar a situação e fazê-la se sentir ainda mais determinada em tirar a própria vida.

Ninguém mergulha nesse sentimento horrível por escolha própria, ninguém quer se sentir assim e ninguém deseja continuar nesse estado. Por isso, você precisa compreender e conversar sobre isso!

Uma recomendação é ser direta e perguntar se a pessoa planeja algo ou pretende tirar a própria vida. Você vai sentir na resposta os sinais de alerta e, então, deve ligar para a emergência se souber que a pessoa já elaborou planos e precisa de ajuda imediata.

Mas não espere a pessoa dizer que quer se matar para buscar ajuda. Muita vezes, a pessoa com tendências suicidas não conta seus planos ou compartilha seus pensamentos. Por isso, se algum conhecido está exibindo os sinais de alerta acima, procure ajuda.

Buscando ajuda profissional

Quem pensar em cometer suicídio deve ligar para o Centro de Valorização da Vida através no número 141, mas quem convive com essa pessoa também pode entrar em contato com essa linha de assistência.

Os atendentes podem ajudar e, inclusive, te instruir e te conectar com psiquiatras e psicólogos.

Aliás, o tratamento psiquiátrico é fundamental. Não acredite em sinais repentinos de melhora, quem sofre com tendências suicidas deve iniciar um tratamento urgente e tomar as medicações necessárias.

Enquanto isso, você pode pedir ajuda para se livrar de possíveis ferramentas suicidas, como armas (brancas ou de fogo), drogas, medicamentos e produtos que possam ser ingeridos com o objetivo de causar a própria morte.

Cerca de 25% dos suicídios acontecem através do enforcamento, então, enquanto a pessoa estiver sob tratamento, é importante esconder itens como gravatas, cintos, cordas e lençóis. Na fase mais crítica, a pessoa provavelmente vai ficar internada mas, se estiver em casa, é importante que você demonstre seu apoio e diga que está fazendo isso para ajudá-la.

Depois que ela começar o tratamento, não saia do lado dela. Você precisa saber se ela está tomando os remédios de acordo com a prescrição, você precisa garantir que ela está frequentando as sessões de terapia e, além disso, você precisa ajudá-la a não ter uma recaída. Muitas vezes, a recaída vem depois do uso de bebidas alcoólicas, então, não deixe que ela beba enquanto está se tratando.

Sente com ela e a ajude a elaborar um plano de segurança para aqueles momentos de desespero. Assim, quando ela pensar em suicídio outra vez, vai saber como agir para evitar o pior.

É importante saber que, apesar de todas essas bandeiras vermelhas, 25% das vítimas de suicídio não demonstram nenhum sinal significativo.

Então, é importante ficar de olho nos pequenos detalhes que podem surgir principalmente depois de algum trauma.

Participe da campanha Setembro Amarelo pelo resto da sua vida e ajude a salvar outras.

Para saber mais sobre suicídio, ouça o podcast do Mamilos especial sobre o tema.

 

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